Comunicação aumentativa e alternativa

“No dia do teste começou o suplicio do João, Zita via-o nervoso a ler e a reler as perguntas. De vez em quando pegava nela, mas voltava a pousá-la .Na verdade uma caneta escreve só aquilo que o dono quer que ela escreva.

Outra coisa foi a prova da Anita.

A Anica pegava nela com cuidado, via as perguntas da folha da máquina e toca a escrever, muito certinha, muito ligeira, parecia que as ideias não lhe faltavam, que era mesmo aquilo que esperava, sem um traço, sem um rabisco. E a Zita voava nos seus dedos cumprindo a sua missão de caneta. E então as contas, essas foram um instante, tudo ali sem um hesitação.

E quando acabou a prova e a Anica a guardou na sua bolsa, a canetinha foi dizendo para a sua tampa que aquilo correra muito bem, que assim até dava gosto escrever.

E voltou a pensar no João. Se pudesse, haveria de perguntar-lhe porque é que ele não fizera como a Anica, e ao mesmo tempo dizer-lhe que embora ela, caneta, o tivesse querido ajudar, não pudera.”

(Adaptado de Pignatelli, I., 1985)

Desde sempre que o ser humano viveu em dependência com o mundo que o rodeia. Na sua vida quotidiana, ele foi ultrapassando os obstáculos que no seu caminho se colocaram, umas vezes utilizando somente o seu corpo, outras, criando instrumentos que o ajudavam nessa tarefa. À medida que a sociedade foi evoluindo, foram desenvolvidas novas tecnologias que permitiram criar novas perspectivas, alcançar novos horizontes e ultrapassar obstáculos de uma forma mais simples e eficaz. Foi criada uma dependência, mas foi sem dúvida, melhorada a qualidade de vida.

Actualmente, as tecnologias de apoio constituem um alicerce da nossa sociedade. Falar sobre tecnologias de apoio é falar sobre algo que completa as nossas vidas, sem o qual não conseguimos viver. Em muitos casos, essa dependência foi estabelecida em função de limitações impostas pelo próprio organismo. Desta forma, podemos considerar que dentro da enorme diversidade das tecnologias de apoio, as características individuais de cada utilizador vão determinar a eleição e posterior adaptação da mesma às possibilidades funcionais da pessoa a que se destina. Para algumas pessoas, a ajuda técnica será um complemento da capacidade motora existente, enquanto que para outras será uma substituição da capacidade motora ausente. (Almirall, 1990).

No caso das tecnologias de apoio direccionadas para a comunicação, estas referem-se a todos os recursos materiais que ajudam o utilizador a expressar-se. Compreendem, desde os quadros de comunicação simples (low teck) até às tecnologias mais sofisticadas (high teck) como computadores, dispositivos com saída de voz, etc. (von Tetzchner e Martinsen, 1993).

Neste contexto, é importante salientar que as ajudas técnicas devem respeitar um conjunto de factores, nomeadamente no capítulo da funcionalidade, onde devem permitir a adaptação a todas as situações e contextos (serem portáteis, acessíveis, simples, etc.).

Segundo von Tetzchner e Martinsen, as ajudas técnicas para a comunicação podem ser divididas em dois grandes grupos: 1 – ajudas técnicas tradicionais; 2 – ajudas técnicas recentes. As primeiras englobam os quadros de comunicação, as palavras escritas, os símbolos gráficos e as fotografias. São amplamente utilizadas. Sendo consideradas tecnologias simples, cumprem importantes funções para a quem elas recorre. Infelizmente, a este tipo de ajuda estão associadas algumas limitações, como por exemplo o período de tempo alargado que implica a sua utilização, quer para a sua adaptação, quer posteriormente no processo comunicativo. Apesar disto, apresenta-se especialmente vantajosa em populações com dificuldades cognitivas, já que a informação a ser transmitida permanece no espaço. Este facto facilita a identificação, não sendo assim necessário recorrer à evocação. Ainda segundo o mesmo autor, no que respeita às ajudas técnicas mais recentes, estas caracterizam-se por se basearem nas tecnologias de computação. Hoje em dia existe uma forte tendência para o uso destas tecnologias numa vertente mais portátil, o que permite a sua adequação de uma forma mais eficaz às funções a que se destinam. O facto do computador poder ser utilizado para diferentes actividades constitui outra das vantagens da sua utilização. No entanto, este pode também ser um inconveniente, uma vez que o computador, como forma de comunicação, está limitado a determinados contextos e actividades. Desta forma se pode inferir quanto às limitações de ajudas técnicas com demasiadas funções, sublinhando a importância de uma ajuda técnica especializada para a comunicação.

Rita Alegria

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